quarta-feira, 21 de abril de 2010

Harlequin da caixa....


Ela vai dando corda e de repente, um palhaço sai da caixa e desperta a gargalhada dela. Ela coloca ele delicadamente na caixa de volta e dá corda novamente, e de novo, o palhaço sai da caixa provocando aquela mesma gargalhada. Ele fica feliz porque está fazendo ela rir, mas na terceira vez que ela o invoca, ele sente uma coisa estranha, um pavor daquela risada, que não tem mais a alegria que ele tanto gostava. E de novo, ele volta pra caixa torcendo para que ela pare, que não abra a caixa, que o deixe ali, quietinho, sem movimentos, ele quer apenas o silêncio do seu esconderijo, da sua caixa. Sem ter que ouvir aquela gargalhada pavorosa e enxergar os olhos cheios de não sei o quê. Mas de novo, é preciso sair da caixa e encarar aquela menina, aquela criança que esconde um mundo inteiro de perguntas e loucuras. O palhaço, temeroso, olha, freneticamente apavorado, pelas fendas que deixam a luz entrar na caixa, procurando desesperadamente se preparar para a próxima vez que verá a menina. Ele não sabe, mas o que ele sente, nem ele sabe. Seu rosto muda, seu sorriso perdeu completamente o sentido, e uma lágrima escorre do seu rosto, está feito. O pequeno Harlequin sente dores que não era pra sentir. Muito mais profundo que isso é o que ele diz pra si mesmo. Ninguém entende o palhacinho e sua dor continua crescendo. Ainda mais quando tem de, obrigatoriamente, se encontrar com aquela criança.

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